A fé que caminha: a romaria do Senhor do Bonfim em Natividade

Cultura

O sol se despede tingindo de ouro o céu de agosto quando, pelas ruas estreitas de Natividade, surgem eles: cerca de 60 romeiros, o grupo do Seu Rofe. Vêm de longe, muito longe. Foram sete dias de caminhada desde Gurupi, mais de 200 quilômetros vencidos no passo da devoção. O corpo de muitos já traz as marcas: pés feridos, músculos cansados, suor misturado à poeira do cerrado. Mas o olhar… o olhar é de quem está perto de vencer e encontrar o sagrado. Amanhã é o último trecho até o destino final: a Igreja do Senhor do Bonfim, no povoado do Bonfim, onde a fé se renova há mais de quatro décadas.

Romeiro Sr Joaquim/Foto: Lohanna Maressa

O grupo é diverso como a própria vida: jovens que levam a esperança nos ombros e idosos que carregam a memória. Entre eles, o senhor Joaquim, 86 anos, presença constante na romaria há 27. Hoje ele percorre o caminho com o grupo, oferecendo apoio e oração.

Assim como acontece com tantas tradições brasileiras, não há registros históricos precisos sobre o início da romaria. O que existe é o fio invisível das histórias contadas de geração em geração. Diz-se que por volta de 1750, vaqueiros encontraram no cerrado uma imagem do Senhor do Bonfim fincada numa tora de madeira. Levaram-na ao povoado, de origem jesuíta. Mas algo misterioso acontecia: a imagem desaparecia e, repetidas vezes, era encontrada no mesmo lugar onde fora achada pela primeira vez. Foi assim, entre o enigma e a devoção, que se ergueu ali uma igrejinha de palha e nasceu a romaria, ganhando força ao longo do século XIX.

O culto ao Senhor do Bonfim veio de Portugal, onde marinheiros, salvos de tempestades, ofertavam imagens de Cristo crucificado em agradecimento pelo “bom fim” da viagem. No Tocantins, ele se transformou num símbolo vivo da fé sertaneja.

Padre Joatan Bispo/Foto: Lohanna Maressa

Entre os guardiões dessa história está o padre Joatan Bispo de Macedo, que esteve à frente da paróquia por mais de 40 anos. Ele mesmo, menino, foi crismado na Igreja do Senhor do Bonfim. Aos 83 anos, recorda com precisão como a festa cresceu: na primeira contagem, a Polícia Militar registrou 1.500 pessoas; depois 5 mil, 10 mil, 20 mil… até chegar ao impressionante número atual de 500 mil visitantes nos dias de festa nos anos antes da pandemia. Entre os momentos mais aguardados está a missa campal do dia 15 de agosto, celebrada ao ar livre e, tradicionalmente, presidida pelo bispo, reunindo milhares de fiéis em um só coro de fé.

Nos anos 80, era comum ver famílias inteiras acampadas ao redor da igreja, dividindo a fartura dos alimentos com uma generosidade imensa. O clima era de comunhão. Hoje, embora ainda haja carência de infraestrutura, o cenário se transformou: a religiosidade segue firme, mas agora é acompanhada por um comércio vibrante que movimenta a economia local nas primeiras semanas de agosto.

Promessa ou gratidão, sacrifício ou celebração: o Senhor do Bonfim é mais que uma festa. É uma manifestação de fé que, mesmo fora do calendário litúrgico oficial da Igreja Católica, atravessou décadas e se enraizou no coração do povo. Porque aqui, em Natividade, a fé não só move montanhas, ela se multiplica aos milhares e caminha, descalça, sob o sol, até encontrar o seu destino.

 

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